Apego, Idolatria e Teshuva (Retorno)

Shalom.
Amados, estou há alguns dias digerindo um pensamento que venho nutrindo a respeito do apego x idolatria e gostaria de repassar pra voces a minha meditação sobre esse assunto. O email ficou um pouco longo, mas leiam, se for possível.
Bem, eu quero começar explicando o que é o apego.
O apego, é uma afinidade, inclinação, afeição muito forte que temos por um determinado objeto (entenda-se objeto tbm de forma abstrada - sentimentos, pensamentos, crenças e etc..).
Existem vários tipos de apego, por ex: apego à pessoas, opiniões, status, ritos, rituais, crenças, dinheiro e etc..
Posso dizer que o apego é uma linha invisível que nos liga ao objeto apegado. Esse apego nos torna pessoas rígidas, com dificuldades para cortar essa linha e desapegar-se.
Todos nós somos apegados à alguma coisa, ou em muitas. E o que tem o apego a ver com a idolatria? Simples.. A divisória entre o apego e a idolatria é muito, muito sútil. Quando estamos apegados a alguma coisa, como disse, a nossa rigidez nos impede de cortamos a linha do apego imediatamente. E é ai, que corremos o grande risco de idolatramos. Seja objetos, seja pessoas, ritos ou pensamentos.
Um certa vez ouvi uma pessoa dizer que, descobrimos o quanto de apego temos a um determinado objeto quando conhecemos o tamanho da dor que sentimos ao abrirmos mão desse objeto. Quanto maior for o sofrimento, maior é o apego.
A idolatria acontece da mesma forma. Na verdade, a idolatria é um apego exagerado.
Algumas pessoas definem a idolatria apenas como um ato de adoração nítida a determinado objeto. Mas percebo que a idolatria é algo muito mais amplo que apenas um culto à uma divindade ou pessoa em particular.
Com o apego exagerado, adoramos (e muitas vezes inconscientemente) as pessoas, adoramos nossos pensamentos, idolatramos nossas crenças, os rituais e etc...
O Eterno nos diz: "não terás outros elohim (deuses) diante mim".
Diante: na frente, em lugar de, que aparece primeiro.
Eu perguntaria: O que voce entende como ter outros deuses diante de haShem?
É muito comum algumas pessoas entenderem que essa ordenança está unicamente ligada a passagem seguinte, onde diz que não podemos fazer imagens de esculturas e adora-las. E acabam se detendo à idolatria somente às imagens.. condenam aqueles que adoram tais coisas, no entanto, carregam dentro de si tanta idolatria quanto.
Eu diria que ter outros deuses perante o Eterno está muito aquém de  um objeto material.
Quando eu tenho dificuldade em abrir mão de alguma coisa, por amor ao Eterno, está claro que aquele objeto pra mim, é mais valioso que o Eterno.
Yeshua nos disse: "Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração" (Matitiyahu 6:21)
Quando o nosso coração se apega a determinada coisa, ele passa a ser o nosso tesouro, e a partir do momento que ele é o nosso tesouro, e temos dificuldades em abrir mão pelo Eterno, idolatramos.
Cito o exemplo do jovem rico (Matitiyahu 19:16-22), que teve dificuldades em aceitar desfazer de seus bens. Seu coração se encheu de tristeza, pois era muito apegado à sua riqueza. Embora ele já observava, de certo modo, a Torah, seu coração idolatrava o dinheiro.
Abrir mão da nossa riqueza por amor e obediência ao Eterno, acredito eu que, só é possível para aqueles que de fato, colocam o Eterno acima de qualquer coisa.  Se eu coloco o dinheiro diante do Eterno, estou idolatrando.
E assim acontece com muitas outras áreas de nossas vidas. Será que estamos com o nosso coração voltado para o Eterno, a tal ponto que conseguiremos deixar (jogar fora, desapegar, excluir, abandonar, rejeitar) qualquer coisa que tenha sido acrescentando à Sua Torah de forma alegre e sem peso em nosso coração?
Será que conseguimos rejeitar o nosso objeto de apego - idolatria - sem dor e sofrimento, considerando esse objeto tão valioso, que me dói rejeita-lo por amor ao Eterno?
Se o Eterno te disser: abandone tal crença, tal prática, tal objeto, rito ou pessoa por amor a mim, você é capaz de abandonar sem tristeza, ao contrario do jovem rico?
Lembro-me de David, quando recebeu do profeta a noticia de que ele estava em pecado. Se Davi estivesse apegado ao seu pecado, com certeza ele iria inventar uma desculpa para justificar seus atos. Mas o coração de David estava voltado para o Eterno, ele disse: Pequei contra Yahweh. David se arrepende profundamente de seu pecado. Assim devemos ser, desprendidos de qualquer coisa que possamos colocar acima do Eterno.
Dentro desse assunto, quero inserir um pouco de psicanálise para explicar onde entra a Teshuvá nessa história toda.
Em psicanálise, existe um complexo chamado Electra (ou Édipo feminino), onde a menina, por volta de uns 4 anos, rivaliza com a mãe o amor pelo pai. A menina cria uma aversão a mãe. No final desse complexo, sendo ele bem enfrentado, a menina então passa a se identificar com a mãe, imitando-a muitas vezes (usando as coisas da mae, sapatos, roupas e etc..)
Quando a menina cresce, em muitos casos, ela deseja ser diferente da mãe, no entanto, podemos observar que, quanto mais ela deseja ser diferente da mãe, mais ela é parecida. Em seu processo de crescimento, a menina carrega crenças, ensinos, e a "voz" da mãe o tempo todo, regendo seu comportamento adulto, muitas vezes impedindo que essa menina amadureça e tenha um encontro com seu proprio eu. Onde acontece de muitas meninas seguirem a carreira que a mãe ou pai desejaram para ela... Mas, numa terapia por ex, ela aprenderá a se desligar da "voz" materna, e assumir a sua propria identidade.
Se trouxermos esse ensino da psicánalise para a sociedade religiosa, podemos observar que, a religião nada mais é que a menina que rivalizou com a mãe, se identificou com ela, quer ser diferente e mesmo assim apresenta muitos traços maternos, e que, para se tornar madura e com identidade propria, necessita se desligar completamente da mãe. Complicado né? Mas não é dificil.
Entao, na pratica, posso dar o exemplo do cristianismo. Quando criança, rivalizou com a mãe Bavel (revolva de Lutero), identificou-se com a mãe (admitindo que sem Bavel, nao haveria cristianismo), cresceu, desejou ser diferente da mãe (não aceita que possui traços da mãe Bavel), mas, é tão parecida com a mãe que não consegue nem mesmo perceber. Isso é um apego, que necessita uma intervenção "psicanalitica", afim de ensinar a essa mulher adulta, que ela pode ter uma identidade propria sem carregar mais a "voz interna" da mãe.
Dentro do judaismo ocorre exatamente a mesma coisa. E aqui nesse ponto eu volto ao inicio para falar do apego. Será que estamos dispostos a enfrentar um "Divã", e aprendermos a nos desligar da "voz materna" que nos rege, e encontrarmos a nossa propria identidade?
Quando me refiro a "voz materna", me refiro àquilo que nos foi ensinado pela "mãe" (judaismo) e que como filhas crescidas, carregamos conosco, camuflando a nossa propria personalidade. Seja os ensinos, crenças, rituais e etc...
E como faríamos isso? No processo de Teshuvá.  A Teshuvá, nada mais é que esse encontro com a nossa identidade, sem o acrescimo "materno".
Teshuvá, é abrirmos mão de todo apego que tivermos até aqui. Abandonar nossa prática idólatra, apego a objetos (crenças, pensamentos, ideias, etc) que colocamos acima do Eterno. Sejam eles quais forem.
Estamos em "terapia". Num divã da Teshuvá. Abandonando o apego com a nossa mãe e nos tornando adultos com identidade propria. Única. E nossa identidade  única nada mais é que a Torah pura e simples.
Vejam o judaismo como essa uma mulher que cresceu, cheia de ensinos da mãe, e que agora está amadurecendo, encontrando seu verdadeiro "eu", e para isso, é fundamental desapegar-se de tudo aquilo que não faz parte de sua verdadeira essencia.
Estamos em fase de amadurecimento. E quem está em amadurecendo precisa ter estar disposto a desapegar-se, para não correr o risco de colocar qualquer coisa acima do Eterno, e acabar em idolatria.
Para concluir, explico que, quando me refiro a um objeto de apego, não estou visualizando apenas um objeto material, palpável. Há muito mais apego em crenças do que a objetos materiais, por ex: há pessoas que acreditam fervorosamente que, ao levantarem da cama pela manhã, precisar colocar primeiro o pé direito do chão, caso contrario seu dia seria uma desgraça. Essa pessoa é exageradamente apegada a essa crença, e, essa crença está acima da crença que o Eterno nos guarda e nos protege. Ou seja, a crença de que seu dia só será abençoado, está no fato de colocar o pé direito no chão, e não no Eterno.
Muitos colocam sua fé exagerada em crenças e consequentemente em praticas, que estão absolutamente contra a Torah, contra o Eterno. É um apego que nos leva a idolatria.
Que haShem, seja nosso Guia nessa busca pela nossa identidade, e que Ele nos dê sabedoria e discernimento para rejeitarmos toda a idolatria que possivelmente ainda faz parte de nossas vidas.
Shalom, e Shavua Tov.
Ashira bat Melquias

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